Calendário Maya está errado? O fim do mundo não era em 2012, mas em 2020?

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Anteontem (portanto, 12 de Junho de 2020, de acordo com o calendário gregoriano), o tablóide The Sun, em sua edição (online) estadunidense, repercutiu uma "teoria" que teria sido originalmente compartilhada no Twitter.[1] Foi através dele que tomei conhecimento do caso que irei comentar aqui, mas aparentemente não foi o primeiro site a repercutir; talvez tenha sido o que fez a coisa viralizar. Na prática, 21 de Junho de 2020 equivaleria, na verdade, a 21 de Dezembro de 2012, pois estaríamos no ano de 2012 no calendário juliano![1] A tal "teoria" foi amplamente difundida (eventualmente, como "da conspiração", o que talvez seja mais apropriado),[2][3][4][5][6][7][8] meio que "ressuscitando" por tabela a velha estória sobre o "fim do mundo" que supostamente os mayas previram para 2012. Além de trazerem de volta as especulações sobre 2012, reiteram uma antiga e recorrente confusão, já que muitos dos links utilizam imagens da famosa "Pedra do Sol", de origem "azteca" (mexica), como se fossem "calendário maya".

Leia, aqui, o que se pode dizer a respeito...

O tweet que originou a teoria, segundo o The Sun e os sites que o seguiram, é de Paolo Tagaloguin, apresentado como sendo um cientista. No texto, ele teria dito:

 

"Following the Julian Calendar, we are technically in 2012.

The number of days lost in a year due to the shift into Gregorian Calendar is 11 days.

For 268 years using the Gregorian Calendar (1752-2020) times 11 days = 2,948 days. 2,948 days / 365 days (per year) = 8 years."

 

Ou, numa tradução livre em português:

 

"Seguindo o Calendário Juliano, nós estamos tecnicamente em 2012.

O número de dias perdidos em um ano devido à mudança para o Calendário Gregoriano é 11 dias.

Para 268 anos usando o Calendário Gregoriano (1752-2020) vezes 11 dias = 2.948 dias. 2.948 dias / 365 dias (por ano) = 8 anos."

 

Some people used the Mayan calendar to predict the end of the world was in December 2012

Imagem meramente ilustrativa: "Pedra do Sol", de origem "azteca" (mexica), foi utilizada pelo The Sun ao repercutir a mais nova "teoria calendárica", mais uma vez confundindo-a com o "calendário maya" e levando à confusão do público.

 

Antes de analisar o texto em si, permito-me contextualizar um pouco a respeito de quem é o Paolo.

Pelo que averiguei, dá pra dizer que ele é, de fato, um "cientista", um jovem homem de origem filipina(!) que foi, inclusive, premiado com uma bolsa da Fulbright (sendo, por isso, um "Fulbright Scholar").[9] Portanto, no mínimo trata-se de um cientista em formação ou pesquisador promissor, nascido em 1993 e atualmente (ou pelo menos recentemente) na University of Tennessee, na cidade de Knoxville. Maaaas, mais especificamente, ele é BIÓLOGO, e mais voltado para o estudo de plantas.[10] Ou seja, pelo menos em termos de formação acadêmica (por mais promissor possa ser) ele passa longe de ser especialista em calendários e/ou em matemática. E a afirmação feita no Twitter, e que viralizou, de fato, demonstra (e muito bem) uma ampla ignorância nestes assuntos.

Note-se, inclusive, que não apenas o tweet foi deletado, como a própria conta de Twitter do Paolo,[11][12][13], Facebook,[14] Instagram,[15] e até seu perfil no LinkedIn,[16] donde estava descrito como "estudante de mestrado" (talvez já mestre, a essa altura). Isto reforça a ideia de que, de fato, ele foi o responsável por ter dito aquilo - se não tivesse sido ele, faria sentido inclusive manter o perfil do Twitter e utilizá-lo para esclarecer que a "teoria" lhe foi indevidamente atribuída. Sem dúvida, há a irresponsabilidade de parte da imprensa em chamá-lo de "cientista" neste contexto, já que evidentemente trata-se de uma área em que ele não é especialista. É como dizer que "o cientista Thiago afirma que existe um planeta habitado a 10 anos-luz de distância da Terra". Oras, eu sou antropólogo, e não astrônomo, muito menos especialista em averiguar vida em outros planetas (estou falando, claro, de astrobiologia/exobiologia ou bioastronomia, e não de ufologia afins). Isto muito possivelmente me "pintaria" como um lunático, e, mesmo não sendo minha especialidade, poderia implicar em descrédito científico. Seria irresponsabilidade minhas, mas da imprensa que divulga o que eu digo e dizendo simplesmente que sou "cientista" também. Imagino que isto deve tê-lo prejudicado, já que agora terá seu nome eternamente vinculado a essa "teoria da conspiração".

Pois bem, vamos ao que interessa, isto é, ao que foi dito no tal tweet:

 

"Seguindo o Calendário Juliano, nós estamos tecnicamente em 2012.

O número de dias perdidos em um ano devido à mudança para o Calendário Gregoriano é 11 dias.

Para 268 anos usando o Calendário Gregoriano (1752-2020) vezes 11 dias = 2.948 dias. 2.948 dias / 365 dias (por ano) = 8 anos."

 

Em primeiro lugar, devemos compreender que o calendário juliano é um calendário de origem romana, que Júlio Cesar (daí o nome...) teria proposto no ano de 46 AEC (Antes da Era Comum) e implementado no ano seguinte. Já era, à época, uma reforma do calendário que vigorava anteriormente em Roma. Com o tempo, o calendário juliano tornou-se o calendário católico (leia-se do Vaticano) e "europeu" por excelência. Foi este o calendário imposto a muitos mayas e outros indígenas, à época da invasão da "América" (na maior parte do século 16), pois era visto como parte indissociável da própria imposição da religião cristã e do modo de vida europeu.

Ainda nas primeiras décadas pós-invasão da "América" (em 1582), entretanto, o Vaticano, à época do papado do Papa Gregório XIII, conduziu o que ficou conhecida como "reforma gregoriana", em que (principalmente) aperfeiçoaram o mecanismo de anos bissextos do calendário juliano: dali em diante, anos que são múltiplos de 100 passaram a ser considerados bissextos apenas quando fosse, também, múltiplos de 400. Isto foi feito para "fixar" ao máximo os dias de equinócios (e solstícios) à conta do ano. Por isso, por exemplo, o ano de 1600 foi bissexto, enquanto os anos de 1700, 1800 e 1900, não. Esta reforma deu origem ao que hoje chamamos de "calendário gregoriano" (fosse à época de um Papa Francisco, possivelmente chamaríamos, portanto, de "calendário franciscano"), mas a mudança implicou também num "salto" de curto prazo, quando de sua implementação original: após o dia 4 de Outubro de 1582, veio o dia 15 de Outubro de 1582 (em lugar de 5). Um salto, portanto, de 10 dias.

Ao menos historicamente, a mudança teve efeito imediato em países/reinos mais próximos da Igreja Católica, especialmente Portugal e Espanha (e, por extensão, supostamente suas "colônias"), muito graças ao rei Felipe II da Espanha. É interessante observar que muitos países não estavam conformados ou unificados como os conhecemos hoje, e que diferentes regiões que hoje estão sob uma mesma bandeira nacional acabaram por adotar o calendário gregoriano em datas diferentes, desde 1582 aquele primeiro momento até, acreditem, 2016, quando a Arábia Saudita o adotou oficialmente.[17] Regiões protestantes da Alemanha e da Suíça, por exemplo, adotaram o calendário gregoriano apenas em 1700 ou até depois.

Isto implica numa necessidade de se contextualizar muito bem, na história dos calendários, os fatos históricos. Qualquer data, especialmente entre os séculos 16 e 19, pode ser relativa ao calendário juliano ou ao calendário gregoriano. Um registro, por exemplo, de 1750 que não seja bem específico, declarando tratar-se do calendário gregoriano, demanda-nos o esforço de investigar o "país" de origem, ou mesmo a região de origem dentro de um "país", para averiguarmos se, de fato, o calendário gregoriano já estava vigente naquele lugar à época do registro (o que, ainda assim, não é necessariamente uma fórmula exata e absoluta, pois devemos considerar a circulação de pessoas e costumes).

Pois bem, o que sabemos é que o Reino Unido adotou o calendário gregoriano oficialmente apenas em 1752, quando 2 de Setembro foi seguido por 14 de Setembro, ou seja, 11 dias de diferença. É esta a referência que Paolo utilizou em seu tweet! Mas pera, e as Filipinas? Elas eram colônias espanholas, o que o próprio nome do Paolo (Paolo Montaño Tagaloguin) ilustra, então dificilmente Paolo refere-se à data em que sua região natal adotou o calendário gregoriano. Mais do que isto, chamam-se "Filipinas" justo em homenagem ao Rei Felipe II, que foi o responsável pelo decreto que levou à adoção precoce do calendário gregoriano em boa parte da Europa. Por isso, ainda que eu não tenha encontrado dados específicos sobre as Filipinas, muito dificilmente elas teriam tardado na adoção do calendário gregoriano.

Como observado, em 1582 a diferença "inaugural" entre os calendários foi de 10 dias. Como 1600 foi um ano bissexto (por ser múltiplo de 400), mas 1700 foi bissexto apenas no calendário juliano, a diferença já era, em 1752, de 11 dias. Portanto, Paolo refere-se à data de adoção do calendário gregoriano pelo Reino Unido e, mais especificamente (levando em consideração que ele foi para os EUA), pela então colônia britânica na "América". Por outro lado, conforme observei, existe uma discrepância em diferentes regiões do que hoje são reunidos em um mesmo "país", e os EUA são um destes casos: as regiões outrora "francesas" e "espanholas" do atual território estadunidense já haviam adotado o calendário gregoriano em 1582. Ironicamente, o Tennessee (donde Paolo vive) parece ter sido primeiro ocupado por espanhóis, e também por franceses, e no fim das contas da afirmação generalista de Paolo não serve nem mesmo para os EUA como um todo (e, aparentemente, nem para a região em que vive).

Paolo foi, para dizer o mínimo, muito incauto. Sua afirmação parece ser a de quem incorporou um "estadunidense" da colônia britânica, e disto partiu para fazer afirmações universais. Oras, o calendário gregoriano foi implementado em 1582, então ainda que outros lugares tenham tardado na adoção, uma afirmação mais universal a respeito de discrepâncias entre os calendários deveria partir disto, e não da adoção pelo Reino Unido. De qualquer maneira, ele está duplamente equivocado a partir do momento em que pressupõe que dias foram "perdidos" e, mais do que isto, que 11 dias são "perdidos" todos os anos.

Primeiro pois, como vimos, a discrepância era de 10 dias em 1582, foi de 11 dias no século 18 e, atualmente, é de 13 dias, o que significa que a discrepância aumentou apenas 3 dias desde 1582, e não que temos 13 dias de discrepância por ano. Portanto, hoje (enquanto escrevo estas palavras) é 14 de Junho de 2020 no calendário gregoriano, e 1º de Junho de 2020 no calendário juliano. A diferença foi fixa em 11 dias apenas entre o 29 de Fevereiro de 1700 e o 28 de Fevereiro de 1800 no calendário juliano! A "perda" (com muitas aspas) de dias ocorre UMA única vez, no momento da adoção do calendário gregoriano.

Segundo, mesmo "pulando" 10, 11, 12 ou 13 dias (dependendo da época em que se adotou o calendário gregoriano) nunca significou, na prática "dias perdidos". Quem viveu por 20 mil dias, continuou a viver os mesmos 20 mil. O que se "perdeu" foi, no máximo, uns dias dentro de uma conta chamado calendário, ou seja, dentro de uma convenção. Quem por acaso viveu a época em que sua região efetuou a mudança poderia, eventualmente, reclamar que seus aniversários foram "antecipados" (diferença que, a cada ano, ou simplesmente manter paralelamente, por conta própria, a antiga conta dos dias (o que muitas pessoas certamente fizeram). Mas não, não "perdemos" dia algum, a não ser dentro de uma convenção social chamada calendário, em que uma nova convenção tomou o lugar de uma anterior.

Esta não é a primeira, nem a segunda, "teoria" que tenta convencer-nos de que não estamos no ano "oficial" (seja ele 2020, 2015, enfim). A versão mais difundida deve ser a de que Jesus não nasceu no "ano zero", e portanto estamos "no ano errado". Ok, mesmo se concordasse que - supostamente - o marco zero do calendário gregoriano deva fazer referência necessariamente ao nascimento de Jesus, isto mudaria muito pouco na prática, especialmente quando outros calendários entram na "jogada".

Dito de outra maneira, tanto faz se agora deveria ser o ano de "2012" ou não, da perspectiva do calendário maya. Ele (especificamente a "conta longa", que originou o "ciclo de 2012") é, sim, correlacionado a partir dos calendários europeus, o que é diferente de ser determinado por eles. Ou seja, o "ciclo de 2012" nunca foi, para os mayas, referente a "2012", mas sim a 13 ciclos Pik ou "Baktun" (13 ciclos de 144.000 dias) que calharam de coincidir com 2012 (quase 2013!). Mas revisar o ano em que estamos não significa que há "dias perdidos" nesta história, nem que o calendário maya "certo" deva concluir 13 Pik no "2012" de uma nova possível versão do calendário gregoriano. Ao contrário, a não ser que realmente fosse comprovado que deixamos de contar uns tantos - vários, muitos - dias, o que seria o "ciclo de 2012" pode passar a ser "ciclo de 2004" sem o menor prejuízo para a ordem dos dias da conta longa em si, que mesmo sendo correlacionada - correlacionável - aos calendários europeus (para facilitar a NOSSA vida a partir de parâmetros hegemônicos e das contas que se globalizaram) é independente deles.

Claro, não seria preciso repetir, mas acaba que sempre é necessário dizer novamente: os registros mayas antigos sobre o fim do 13º Pik nada têm a ver com previsões de fim do mundo. Ao contrário, normalmente (e isto não foge ao caso) são registros feitos num passado distante, direcionados por antigas elites governantes que miravam para o futuro não pensando em um fim, mas em uma continuidade. Isto é, passaria muito, muito tempo, e "eu" ainda estaria aqui de alguma forma, os meus estariam aqui, essa cidade que eu domino continuaria sendo abençoada pelos "deuses", a minha memória ainda estaria viva, meu poder seria mesmo "renovado", ainda que tanto tempo depois. Portanto, na direção oposta de um fim do mundo, as elites mayas esperavam (mais do que isto, desejavam) que seu poder e sua governança perdurasse por muitos séculos e milênios. Da mesma maneira, buscavam em séculos e milênios míticos, no passado, a legitimação de seu poder. O discurso destas antigas elites tem muito apelo, já que elas manipulavam a "conta longa" que é, literalmente, um calendário infinito. Qual é o maior ciclo maya? É o infinito, é a idade do próprio tempo, se assim quiseres... Não existe o maior ciclo. É também, por isto, que eu discordo (inclusive de alguns especialistas) que querem crer que o fim do 13º Pik significa, necessariamente, um "reset" da "conta longa" - poderia ser, mas apenas por convenção. Na prática, registros mayas enfraquecem esta própria convenção como, por exemplo, um registro em Palenque que remete à data de 1.0.0.0.0.8 5 Lamat 1 Mol (para marcar 80 ciclos de 52 anos desde a ascensão de K'inich Janaab' Pakal ao poder na região), que na correlação mais aceita equivale a 21 de Outubro de 4772... Ou (mais ainda) a estela 1 de Cobá, que possui um registro calendário gigantesco e que seria mais longo que a idade do próprio Universo (vide livro abaixo). Mais razões para afirmar que o calendário maya é... Infinito. Para todos os efeitos, não existe fim nem do calendário maya, quanto mais do mundo.

Para quem quiser aprofundar, seja nos calendários mayas (que são vários), seja no "ciclo de 2012", recomendo meu livro Calendário Maia, 2012 e Nova Era, disponível clicando aqui.[18]

Obs. 1: Um dos sites que repercutiram a "trapalhada" toda menciona que outros internautas começaram a relacionar com o calendário da Etiópia,[19] no qual de fato estamos no ano de "2012" (o ano novo deles é em Setembro),[20] como se ele refletisse o que seria (ou deveria ser) de fato o calendário juliano, o que é absolutamente falso.

Obs. 2: A título de conclusão, é bom ser justo e destacar que, por mais imprudente e sem noção possa ter sido não há qualquer indício de que o Paolo em si tenha feito essa relação com o "calendário maya", o "ciclo de 2012" e o "fim do mundo", até donde pude observar. Então, a princípio, isto deve ser atribuído a outras pessoas, que começaram a especular em cima da (completamente infeliz) especulação de Paolo.

Obs. 3: Continuam aparecendo mais links reproduzindo a "notícia" sobre a "teoria". Eles ficarão linkados aqui no fim do texto.[21][22][23][24][25] É... ACHO que vou parar de colecionar esses links!

Obs. 4: As bizarrices não têm fim. A coisa está viralizando mais e mais no Brasil (entre 15 e 16 de Junho de 2020 em diante), e surgiu também um PERFIL FAKE do Paolo no Twitter, que já tem enganado alguns incautos na internet.

Obs. 5: Começaram a surgir páginas que atestam o mesmo que atestei aqui, a respeito do calendário juliano, e esclarecem que os mayas não previram o "fim do mundo" em "2012".[26][27][28] Entretanto, até donde tenho conhecimento, este foi o primeiro texto realmente criticando este novo "viral" sobre calendário maya.

Obs. 6: Há pouco (começo da noite de 17 de Junho de 2020) tomei conhecimento, através de um desconhecido no Twitter, do projeto Fábrica de Noobs, de um jovem chamado Natanael Monteiro. Ele publicou um vídeo no mesmo dia que publiquei este texto. Ficou um pouco longo (mais do que este texto, que também ficou longo), mas vale a pena. Tem algumas imprecisões bastante pontuais (eventualmente, este texto também), mas que não comprometem: é um ótimo vídeo! Ele se dedica a pormenores sobre os quais não me debrucei (e vice-versa), então acabam se complementando em certo ponto, mas no que mais interessa (obviamente) há vários pontos em comum e convergências entre este texto e o vídeo. Clique aqui para assistir o vídeo.