Brainstorms pandêmicos com datas mayas - ensaio do tempo ritual

Acho que vou começar a incluir a data maya (com os nomes mayas yukatekos) nos meus textos mais pessoais por aqui também, ainda que eu mesmo tenha preferido muito mais usar os nomes dos dias do calendário maya em língua Maya K'iche', e tenha feito esta escolha já há vários anos.

13.0.7.12.19 1 Kawak 2 Yaxk’in

13.0.7.13.0 2 Ajaw 3 Yaxk’in

(31/07 e 01/08/2020)

Durante a pandemia, muito pensei - sobre muita coisa -, mas poucas vezes na vida tenho pensado quanto nos últimos7 ou 9 dias. E nestes dias mais recentes tenho pensado mais e mais sobre o doutorado, especialmente a tese.

Quer dizer, eu quero fazer algo que vai dar muito trabalho e resultar numa tese extensa que explora os calendários mayas em diferentes áreas (da etnografia dos calendários mayas à antropologia aplicada com um projeto de software livre diretamente oriundo da tese). Enfim... Apenas breves registros pandêmicos.

Kablajuj No'j (29/07/2020) e Oxlajuj Tijax (dia seguinte) foram excelentes dias, bem como Jun Kawuq (31/07/2020).

Kablajuj No'j coincidiu com a reunião da Associação de Estudos Mayas, que reuniu quatro de nós, brazucas da nova geração de pesquisadores interessados pelos mayas de modo geral.

Brainstorm, "toró de ideias" ou "tempestade [de] cérebro(s)", que já vinha de pelo menos uma semana depois. Seguindo, Oxlajuj Tijax e... Jun Kawuq como dia "da tempestade", "do raio", da família de um monte de coisa.

E as coisas só foram melhorando...

Acabei num encontro entre "guias espirituais mayas" ou "novos ajq'ijab'" (especialistas do calendário ritual maya, plural de ajq'ij, que significa algo como "pessoa [dos] dia[s]"). Mayas ou "adotados" pelos mayas, eu estava em uma reunião por chamada de voz com nanas ("avós") e tatas ("avôs"), outra maneira de se referir a um(a) ajq'ij... Entre eventuais interessados e praticantes da chamada "espiritualidade maya" (que basicamente é como os mayas mais urbanos e vinculados  ao movimento maya tratam as formas de "religião" com que os mayas se fizeram notar também no espaço público).

Ajq'ijab', online, em plena pandemia... Jun Kawuq! Isto vai dar artigo acadêmico. De "netnografia" dos calendários mayas "em tempos de pandemia"! Eu odeio a hegemonia deste "em tempos de pandemia", mas bueno... Que tal mostrarmos que é possível falar, desde já, sobre mayas na pandemia?

Para melhorar tudo, a reunião entre ajq'ijab' foi realizada usando software livre (Jitsi Meet), sem webcams! Como naqueles sonhos repetidos, em que eu apenas os escutava, estando eu lado a lado com os ajq'ijab' do passado (@s abuel@s de muitas gerações passadas), como que tecendo o tempo, ainda que no escuro, em língua maya!

Claro que, se por um lado, meus sonhos eram mesmo em línguas mayas, a espiritualidade maya de um modo mais amplo pauta também a tradução e a divulgação do calendário maya em espanhol. Por isto, ela pode ser mais caracterizada por chocar antropólogos novatos, ao recorrerem a termos como "energia", talvez até "signo" e por aí vai - ao mesmo tempo em que busca saudar, um a um, todos os 260 dias pelos seus respectivos nomes mayas.

Este toró de brainstorm ainda vai me trazer muita cooisa boa - pero bueno, pronto viene el uwach uq'ij de Job' Aq'ab'al... Ojalá eu possa em breve trazer muitos conteúdos novos sobre calendários mayas, em diferentes sentidos que vocês nem imaginam!

A tal da espiritualidade maya chama para encontros e reencontros, e é a via para a superação de calendários new age, que insistem em deturpar os calendários mayas e forjar um senso comum sobre calendários mayas no Brasil. Eles se fizeram passar por calendários mayas por muito tempo, enganando a muitos, afastando ainda mais nosso povo do conhecimento relacionado aos povos indígenas "reais", em favor de privilegiar os "imaginados". E os mayas, bem... Os mayas calham de ser os mais vangloriados e imaginados de todos os indígenas da América, comparados aos gregos & romanos... Haja evolucionismo e generalização que endeusa uma elite de governantes, não é não?!

Mas nós ocuparemos cada vez mais o espaço público... Com muita antropolokura!

Hasta pronto, ¿entonces?