Numerus apertus - dos mayas para Walter Benjamin, o tempo e a história

Pensava comigo: que texto produzir para a abertura deste sítio (CalendarioMaya.NET)?

Sem tempo além de um par de horas, pensei primeiro em traduzir um trecho de algum texto sobre arqueologia e calendário maya. Acabei, entretanto, abrindo minha cópia do (instigante) livro Maya Calendar Origins (University of Texas Press, 2007). Afinal, essa questão das origens dos calendários mayas e mesoamericanos "volta e meia" retorna aos meus horizontes - ainda que tal origem possa, como eu acredito, estar longe de nossos olhos, sejam nus ou vestidos com telescópios (e/ou microscópios?).

Em lugar de pular diretamente ao miolo do livro, e deparar-me com algum trecho da autora, Prudence M. Rice (que era o que eu queria), fui mais linear do que de costume (algo a que o formato digital incentivou-me, neste caso), e desci apenas até a epígrafe do livro:

Authority over the annual calendar . . . , or of other chronological instruments like clock time, not only controls aspects of the everyday lives of persons but also connects this level of control to a more comprehensive universe that entails critical values and potencies in which governance is grounded. Controlling these temporal media variously implies control over this more comprehensive order and its definition, as well as over the capacity to mediate this wider order into the fundamental social being. . . . Hence the importance of calendric and related time shifts connected with sociopolitical changes is more than political in the narrow pragmatic sense. It has to do with the construction of cultural governance through reaching into the body time of persons and coordinating it with values embedded in the “world time” of a wider constructed universe of power.

— Nancy Munn, “The Cultural Anthropology of Time: A Critical Essay” [1992, p. 109]

Neste trecho, Nancy Munn destaca a autoridade sobre os calendários como algo diretamente relacionado aos fundamentos da governança. Mais do que isto: atenta-nos para a dimensão da política e do poder - e de como se exerce o poder - em termos de tempo. Os calendários, invariavelmente criações humanas, e também por isto muy diversos, são instituídos socialmente - seja na sociedade "globalizada", seja numa sociedade "maya" - não por meros acasos ou desenvolvimentos científicos ou religiosos descompromissados, mas também por meios e fins políticos, e mesmo como exercício de poder.

Constituir uma noção mais partilhada - e mesmo historicizada - da categoria "tempo" (que deve ser indissociável da categoria de "espaço") passa pelo desenvolvimento de calendários. Estes servem como instrumentos indispensáveis na (re)produção da cultura e na potencial perpetuação determinadas efemérides históricas convenientes aos grupos que detenham não apenas maior controle sobre os calendários em si, mas sobre territórios e pessoas. Afinal, um calendário podem servir como um "meio de produção" que, ainda possa ser entendido por "auxiliar", é capaz de contribuir e muito na concepção de indivíduos que partilham um mesmo espírito humano em inúmeros aspectos (de uma mesma "cultura". São os calendários, afinal, "fato social total"?

Confesso que, logo ao escolher esta epígrafe, lembrei não de Émile Durkheim ou Marcel Mauss - como talvez muitos antropólogos poderiam fazer num primeiro momento, quando o assunto é "tempo" -, mas de Walter Benjamin. Mas antes, é bem verdade que o "18 de Brumário" também costuma vir à mente (muito culpa do mestrado em sociologia), quando se busca evidenciar mais "interfaces" entre política e calendários. Afinal, Karl Marx "brincou" com o calendário revolucionário francês e as possibilidades polissêmicas dos dias.

Na relação entre tempo e história (que são também indissociáveis), datas de calendários ganham significados e rememorações específicos, e uma mesma data cíclica (como as que se repetem cada ~365 dias) pode perfeitamente comportar acontecimentos diferentes e qualidades distintas. Como deve o 18 de Brumário ser lembrado? Pode o 18 de Brumário preencher de significado o que ocorreu em outro dia, no 12 de Frimário? Ou, para pensar em 2019, como deve a virada de (31 de) março para (1º de) abril de 1964 ser interpretada - e ensinada nas escolas - no contexto da história política brasileira? Certamente, hoje vivemos um momento em que, no Brasil, uns celebram, e outros repudiam (ou lembram de uma maneira diferente), um mesmo acontecimento, uma mesma data.

Mas qual será a relação entre Walter Benjamin, 18 de Brumário e a epígrafe? Walter Benjamin - e daí a lembrança -, atentou para o fato de que o estabelecimento de uma nova ordem política na França (a revolução francesa de 1789) foi acompanhado pela instituição de uma nova ordem temporal, ou pelo menos de um esboço ou projeto dela, na forma de um novo calendário - o calendário revolucionário francês (ou calendário republicano). Ao longo da história, impor uma nova ordem política também passa, e não raramente, por impor um novo calendário, uma nova maneira de mensurar ou "mediar" o tempo, e especialmente estabelecer significados para seus dias, meses e outros ciclos. 18 de Brumário - assim como 12 de Frimário - é justamente um dia do mês de Brumário, segundo o mesmo calendário francês. Mas sobre este caso específico que envolve Napoléon Bonaparte, seu sobrinho Louis e Marx eu publico mais depois - ou não.

 

Publicação do calendário republicano (ou revolucionário) francês (Wikimedia)

Voltando ao que interessa (mas sem sair do escopo)... As teses sobre história de Walter Benjamin são marcantes, e ajudam a pensar não apenas a história, mas os calendários na/da história, partindo justamente do caso francês (e, se quisermos, tratando também de estratégias de governança):

(...) [tese 13]
A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

[tese] 14
A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de "agoras". Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de "agoras", que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o actual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. (...)

[tese] 15
A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. (...)

--- Walter Benjamin, "Teses sobre o conceito de história" [1940, grifos meus]

O "progressismo", para Benjamin, com seu continuum, é mesmo um inimigo da história, que jamais pode ser entendida como resultado de um "tempo homogêneo e vazio". Fazer "explodir" este continuum, por sua vez, implica numa ruptura com a historiografia oficial, dando lugar às alteridades reprimidas "na e pela história do sempre igual, que é a história das forças políticas retrógradas dominantes" (NEVES, 2010, p. 30).

A manutenção da ordem política, ou o estabelecimento de uma nova, passa pela história, e também por como o tempo é culturalmente organizado (através dos calendários, por exemplo). Calendários são - sempre foram - também extremamente políticos, ou politizados.

Este primeiro texto se alongou mais do que eu gostaria; eu tinha até levantado mais comentários muito sobre as teses de Benjamin, mas o perdi (não me perguntem o motivo)... Ia até comentar um fenômeno bastante contemporâneo, sobre como as classes dominantes podem admitir pequenas reformas em certos calendários, sem com isto ameaçar seu continuum (diferente do que ocorre numa revolução que institui um novo calendário e provoca uma completa ruptura, por exemplo)

Mas não vou. Fui! (e doem para a minha vaquinha "plmdds").